Quando eu comecei a jogar Magic a gente não tinha o termo "bulk". A gente simplesmente tinha as nossas cartinhas, que podiam ou não ser usadas pra criar decks, trocar com amigos ou simplesmente colecionar. A cada booster que a gente comprava essa galeria aumentava, trazendo uma gama maior de cartas para serem usadas.
Naquela época eu e meu grupo estávamos começando a descobrir que era possível comprar singles na internet, mas ainda era algo muito inicial.
Mas tinha uma outra maneira de ter acesso a cartinhas sem ser por meio de boosters, as caixas com cartas aleatórias das lojinhas!
Não eram muitas lojinhas de coisas nerds que existiam ainda, mas no centro de Curitiba tinham duas lojinhas que tinham caixas, uma a 25 centavos e uma a 1 real cada carta. E a gente fazia a festa!
Eram cartas aleatórias, que podiam ou não valer o preço que a gente pagava (e na grande parte das vezes, não valiam haha) mas às vezes a gente encontrava umas perolas, tipo esse Pryrexian Metamorph promo foil que na data de hoje tá a R$ 34,99 no preço mínimo da Liga Magic e eu comprei por 1 real!

Um outro exemplo legal sobre esses "pacotes aleatórios" são os lotes que são vendidos na Shopee e no Mercado Livre, que trazem centenas de cartas em sua grande maioria comuns e incomuns de várias cores e várias coleções diferentes, permitindo principalmente com que jogadores mais novos tenham acesso a uma grande quantidade de estratégias diferentes, o que ajuda demais a aprender a jogar e explorar o que a pessoa gosta mais.
Hoje essas caixas e lotes são comumente chamadas de Bulk, vindo do verbo em inglês que significa "volume". São basicamente aquelas cartas que a gente tira aos montes em boosters, que não tem valor econômico muito grande e ficam literalmente ocupando espaço em alguma caixa em casa.
Mas e se eu disser pra vocês que as bulks podem muito bem servirem pra algo além de porta-copos e peso de papel?
Vamos começar pela exploração de estratégias que comentei ali em cima. As bulks tendem a agrupar uma variedade bem grande de estratégias diferentes, muitas que são lançadas em uma coleção e não voltam nunca mais. Tenho aqui em casa muitas cartas relacionadas ao tipo de criatura Detetive, que foi bastante utilizado na coleção Murders at Karlov Manor. Entretanto, há cartas de detetives em outras coleções, como Edge of Eternities, Spider-man e agora na vindoura Tartarugas Ninja, que podem muito bem ser utilizadas para construir decks baseados nessa estratégia. Essas cartas que aparentemente não servem para nada podem muito bem se encaixar de maneira excelente em decks de coleções posteriores, como em tantas cartas que, inclusive, tiveram seu valor aumentado a valores astronômicos justamente por se encaixarem em alguma interação com cartas novas!
Ou talvez você caia em uma situação parecida com a que eu tive recentemente, em que eu encontrei na minha Bulk (sim, isso acontece com uma certa frequência) uma carta que me fez querer criar um deck na hora com ela:

Patas-Leves, Voz da Imperatriz é uma criatura de Kamigawa Neon Dynasty que, sozinha, já consegue fazer um estrago na mesa, mesmo com encantamentos do tipo aura que não sejam tão bons ou eficientes assim. Aí lá fui eu caçar nas minhas caixas a maior diversidade possível de cartas de aura para colocar no deck, independente de serem as mais otimizadas para o deck. Esse é um ponto que vale um parêntesis bem legal, eu gosto muito de criar decks. Experimentar estratégias, ver as engrenagens do deck funcionando. E a melhor forma de fazer isso sem investir muito no primeiro momento é utilizar bulks para isso. Dessa forma eu consigo brincar e testar as ideias dos decks e, se eu gostar, vou otimizando com o tempo, comprando singles, escolhendo terrenos mais eficientes, cartas que podem fazer o meu deck ser mais rápido, mais forte e por aí vai.
E isso só é possível tendo uma grande quantidade de cartas, mesmo que não sejam as mais poderosas possíveis.
"Ah Lara, mas aí você não vai ter os decks mais fortes!" - concordo em partes. É verdade, as bulks vão ter cartas que não vão ser as melhores para cada estratégia. Mas elas vão garantir horas de diversão e aprendizado. Magic, assim, como muitas outras atividades, requer prática, seja para aprender a "pilotar" os decks, seja para criar decks. E experimentar uma quantidade maior de estratégias vai te trazer essa experiência no deck building. Entender quais cartas são mais eficientes, quais cartas podem ser substituídas e quais cartas tão ali só pra ocupar espaço por outras melhores e mais adequadas estarem faltando é algo que você vai aprendendo fazendo. Aí com o tempo você vai evoluindo os decks que você gosta mais, investindo dinheiros neles e aí sim, deixando eles mais fortes. Mas muito tá em treinar, experimentar e ver o que acontece nas partidas. Inclusive, jogar com decks mais "fracos" ajuda muito a entender como aquelas estratégias podem ser melhoradas. "humm, eu poderia colocar tal artefato para combinar melhor aqui", "talvez essa mágica aqui possa ser uma boa para este tipo de criaturas que eu tenho nesse deck aqui" e por aí vai.
Há também o fato de que os produtos novos de Magic estão cada vez mais caros. Magic é em geral um hobby caro, e esses lotes de cartas ajudam bastante a tornarem o jogo mais acessível a pessoas que talvez não pagariam 800, 1000 reais numa caixa de boosters ou 400 reais num deck de commander. Tenho amigos que compraram em conjunto uns lotes desses e passaram tardes montando e desmontando decks e fazendo duelos, é uma forma de diversão com o jogo que se alinha muito ao Magic na mesa da Cozinha, o "formato" mais jogado do jogo, disparado.
Muita gente tem até nojinho de bulks (sério!), já vi comentários bem bizarros sobre essas cartas. Mas sobre a bulk eu sou bem a favor da ideia de que o que muita gente chama de lixo possa esconder alguns tesouros que podem surpreender!
Lara Labs